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A TRANSUBSTANCIAÇÃO

Ano 1263 – Bólsena (Itália)

Se a insigne Catedral de Orvieto é célebre na Itália e fora dela, graças a sua beleza artística e especialmente pela riqueza e magnificência de sua fachada, não é menos notável e querida aos devotos filhos da Igreja Católica, porque guarda o tesouro inestimável de uns Corporais manchados com o sangue vivo do Redentor.

O acontecimento prodigioso se acha confirmado pela autoridade de setenta e oito historiadores italianos e estrangeiros, entre os quais figuram Baronius, Muratori, Panvinius e Ughelli.

O fato se passou em 1263, quando o Papa urbano IV se refugiou com a Corte Pontifícia em Orvieto, a fim de proteger-se das sacrílegas vexações que os apaniguados de Manfredi, intruso rei da Sicília, cometiam contra o Patrimônio de São Pedro.

Nessa ocasião aconteceu de passar por Bólsena, que então pertencia à Diocese de Orvieto, um sacerdote alemão que se dirigia em peregrinação à Roma.

A finalidade de sua viagem era venerar o sepulcro dos Apóstolos São Pedro e São Paulo e, impedir, por sua mediação, a graça de se ver livre das impertinentes dúvidas que desde algum tempo o afligiam com relação à presença real de Jesus Cristo na Eucaristia. Antes de prosseguir viagem, o peregrino entrou na igreja dedicada à Virgem e Mártir Santa Cristina, para rezar a Santa Missa.

Estava o sacerdote celebrando o Santo Sacrifício quando, no ato de sustentar a Hóstia já consagrada para parti-la sobre o cálice, esta se converteu toda em carne e sangue, com exceção de um pequeno fragmento que tinha entre os dedos. As gotas de sangue que se desprendiam da sagrada Hóstia marcaram os Corporais.


Assombrado o sacerdote, e desejando ocultar aquele sangue, dobrou os Corporais, mas em vão, porque até nas dobras deles se reproduziram vinte e cinco manchas, mas qual aparece impressa a imagem do Salvador, no triste aspecto com que foi mostrado ao povo judeu por Pilatos.

Espantado e quase fora de si pelo prodígio, sem força nem ânimo para continuar a Santa Missa, o celebrante tomou a Sagrada Hóstia convertida em carne junto com os Corporais e o purificador, desceu os degraus do altar e foi levando tudo à sacristia. Neste caminho aconteceu que da hóstia sacrossanta e dos lenços sagrados caíram algumas gotas de Sangue, ficando marcadas as manchas em quatro pedras distintas do pavimento, que era de mármore.

Uma dessas pedras se venera no próprio altar em que ocorreu o prodígio, e a outra no altar-mór da nova igreja, denominada “do Milagre”.

Sumamente comovido o sacerdote por todo o ocorrido, tomou a determinação de ir a Orvieto, onde se lançou aos pés do Sumo Pontífice e lhe pediu a absolvição de suas faltas, relatando a história do prodigioso sucesso.

Informado do fato, ordenou o Papa ao bispo de Orvieto que fosse a Bólsena e dali trouxesse as sacrossantas relíquias. Chegado o bispo, na presença do clero e de uma multidão imensa de povo que havia acudido, tomou na sacristia da igreja de Santa Cristina a Hóstia adorável e os sagrados lenços tintos de sangue, e acompanhado por sacerdotes e pelo povo se dirigiu a Orvieto.

Junto à ponte que atravessa a Torrente chamada Riochiaro, lhe foi ao encontro o Sumo Pontífice, acompanhado do Sacro Colégio dos Cardeais, de eclesiásticos, associações religiosas, autoridades civis e militares e de uma inumerável multidão de fiéis.

Profundamente inclinado e de joelhos em terra, o supremo Hierarca da Igreja adorou o Santíssimo Sacramento, e tomando das mãos do bispo a sagrada Hóstia convertida em carne, assim como os Corporais manchados com o preciosíssimo Sangue de Jesus Cristo, conduziu em procissão até a cidade, entre os devotos cânticos do clero e do povo, depositando-os no sacrário da Catedral.

Essa foi, depois da de Daroca, na Espanha, a segunda procissão de Corpus Christi.

Na verdade, foi providencial o admirável acontecimento, pois determinou ao Sumo Pontífice Urbano IV instituir em toda a Igreja católica a festividade de Corpus Christi, que já havia algum tempo lhe era pedida pela Beata Juliana, cisterciense de Liège.

Essa solenidade anual foi decretada pela Bula Transiturus, publicada em Orvieto no ano de 1264, e fixada para a quinta feira depois da oitava de Pentecostes.

O prodigioso acontecimento deu mais tarde motivo a que os orvitanos edificassem sua magnífica catedral, na qual se encontra reunido tudo quanto se pode desejar de harmônico, rico, belo e grande na arquitetura, pintura, escultura e obra de mosaico.

Os sagrados Corporais mancados com o prodigioso Sangue são venerados na mesma Catedral, dentro de um precioso tabernáculo.


(Baronius, Annales Ecclesiastici – Ughelli, Ital. Sacra)

DEVOÇÃO RECOMPENSADA

Ano 1293 – Habsburgo (Suíça)


Era tradicional e hereditária na casa dos augustos monarcas da Áustria a devoção do Santíssimo Sacramento, desde o inicio da dinastia dos Habsburgos, que tantos séculos reinaram sobre o Sacro Império.

Em fins do século XIII, foi o príncipe Rodolfo de Habsburgo à caça, sua diversão favorita, quando encontrou um pobre sacerdote que, a pé e com um pequeno acompanhamento de fiéis, levava o Santíssimo Sacramento a um moribundo.

Levado o príncipe por um sentimento de piedade, disse a si mesmo:

– Miserável de mim! O Rei dos céus e Senhor do universo é levado a pé, e eu, seu escravo e vil criatura, vou comodamente montado a cavalo!

No mesmo momento apeou e ofereceu seu cavalo ao sacerdote. Em seguida, tomou entre as mãos uma vela e com a cabeça descoberta acompanhou a Jesus Sacramentado.

Chegando à casinha do pobre enfermo, posto de joelhos assistiu à derradeira Comunhão do enfermo e depois doou seu cavalo ao sacerdote, considerando-se indigno de utilizar um cavalo sobre o qual o Ministro do Senhor havia levado o Pão da Vida.

O sacerdote, comovido ao ver tanta piedade em um príncipe, profetizou-lhe que Deus a premiaria com uma muito assinalada mercê.

Com efeito, nove meses depois Rodolfo era eleito Imperador da Alemanha e Rei dos Romanos, no meio do entusiasmo de todo o povo, e com plena aprovação e confirmação do Sumo Pontífice Gregório X, que então governava a Igreja.

(PE. Pedro Laurenti S.J., Le Meraviglie del SS. Sacramento, p.130)

CHUVA COPIOSA

Ano 1603 – Ilha de Chio (Turquia)

Em 1603, a ilha de Chio estava ameaçada por uma grande miséria, porque a falta de chuva havia esterilizado por completo os campos. A situação era tão desesperadora que os próprios turcos maometanos suplicaram aos cristãos que fizessem uma procissão com o Santíssimo Sacramento para obter o favor de Deus.

O cortejo foi prontamente organizado, e os muçulmanos quiseram que suas tropas fizessem escolta ao Deus da eucaristia. Este ato público de fé e confiança em Deus não ficou sem recompensa, pois mal a procissão começou a desfilar pelas ruas, densa nuvens se acumularam no céu e em poucos minutos desabou uma copiosíssima chuva, precisando os concorrentes de refugiar precipitadamente na igreja. A chuva benfeitora durou três dias, devolvendo à terra sua fertilidade, e com ela a esperança de uma abundante colheita.

O milagre foi tão evidente que um numero de maometanos se converteu à Fé de Cristo, e o governador da ilha se sentiu na obrigação de favorecer os católicos, outorgando-lhes extraordinários privilégios e franquias.

(Pe. Silv.Petrasancta S.J., Thanmasia verae religionis contra perfidiam sectarum, t.3,p.74)

ASSALTO RACHADO

Ano 1250 – Assis (Itália)

O Imperador Frederico II, tristemente célebre por seus sentimentos hostis à Igreja Católica, desolou a região de Spoleto, pertencente aos Estados Pontifícios, passando tudo a ferro e fogo. Mercenários sarracenos o ajudavam nesse criminoso empreendimento, assanhando-se especialmente contra igrejas, mosteiros e conventos.

Quando tais hordas sanguinárias sitiavam a cidade de Assis, viram o convento de São Damião, contíguo às muralhas, e determinaram penetrar nele, desejosos de executar contra as religiosas, no sagrado recinto, os mais infames crimes.

Estavam já os muçulmanos a ponto de subir as muralhas, quando Santa Clara, sabendo do perigo ameaçador, se fez conduzir da enfermaria, onde jazia enferma, para a porta do convento, e ordenou que lhe levassem ali mesmo a custódia com o Santíssimo Sacramento.

À vista dos inimigos do nome de Cristo que iam dar assalto, prostrou-se a Santa diante do Senhor. E derramando abundantes lágrimas Lhe rogou, dizendo:

– Havereis Senhor, de entregar às mãos destes bárbaros tantas servas que eduquei no vosso amor e no vosso santo serviço?! Protegei-as Vós mesmos, eu vo-lo suplico, pois não as posso defender eu.

Naquele solene momento ouviu-se uma voz que saía do Santíssimo Sacramento, dizendo:

– Eu vos protegerei sempre.

No mesmo instante, sentiram-se s inimigos dominados por um espantoso terror, e descendo precipitadamente das muralhas fugiram em debanda.

A Igreja honra a memória de Santa Clara no dia 12 de agosto, e sua morte teve lugar no dia 11 de agosto de 1253.

(PE. Pedro de Rivadeneira S.J., Flos Sanctorum)

DEVOÇÃO CONSTANTE

Ano 1300 – Cebrero (Espanha)


Na diocese de Lugo, na Galícia, vivia cerca de meia légua de um povoado chamado Cebrero um morador que tinha tanta devoção ao santo sacrifício da Missa, que por nenhuma ocupação, nem por inclemência alguma dos tempos, jamais deixava de ouvi-la com grande proveito de alma.

Um dia, teve o bom homem que forcejar muito contra ventos, neve e tempestades para poder chegar à igreja de Cebrero.

Estava um sacerdote rezando Missa, sem imaginar que alguém pudesse, naquele tempo tão tormentoso, subir à igreja. Já havia consagrado a Hóstia e o Cálice quando o piedoso aldeão chegou, e espantando-se o sacerdote quando o viu, menosprezou-o interiormente, pensando:

– Por que é que vem esse homem, tão cansado e debaixo de tão grande tempestade, só para ver um pouquinho de pão e vinho!

Mas o Senhor, que em todo lugar, por mais escondido que seja, obra suas maravilhas, quis abrir os olhos do seu miserável ministro, que havia duvidado da fé do Sacramento, e recompensar com um estupendo milagre a constante devoção do bom aldeão que veio ouvir a Missa com tantos incômodos. E aconteceu que a Sagrada Hóstia se converteu em Carne e o vinho em Sangue.

Durante muito tempo permaneceu na sua patena a Hóstia envolta com carne, e o Sangue no mesmo cálice em que havia acontecido o milagre, até que passando a rainha D. Isabel de Portugal, em romaria a Santiago de Compostela, e hospedando-se no mosteiro de Cebrero, quis ver um prodígio tão maravilhoso, e quando viu, mandou pôr a Carne adorável numa redoma e o precioso Sangue noutra.

“Eu – disse o historiador Pe. D. Antonio Yepes – , ainda que indigno, vi e adorei este sagrado Mistério quando passei por aquele lugar e vi as duas ampolas, e numa está o Sangue, como se acabasse de coalhar, e tão colorido como se fosse de um cordeiro recém-abatido. A Carne, que se vê por trás do cristal, é seca e tem a cor de carne. O cálice em que ocorreu o milagre até hoje se conserva com o sinal do Sangue, e todas estas coisas sagradas se levam em procissão do dia de Corpus Christi e nas festas de Nossa Senhora de Agosto e de Setembro, dias esses em que acode muita gente para se beneficiar das graças e de suas indulgencias”.

(Pe. D. Antonio Yepes, Crônica de la Ordem de San Benito)

PAVOR DE UM MENINO

Ano 1601 – Vilueña (Espanha)


Na cidade de Vilueña, situada entre os rios Jiloca e Mesa, não muito distante de Munébrega, morreu no dia 8 de novembro de 1601 D. Pedro de Goñi, marido que foi de |D. Juana de Heredia. O sepultamento se anunciou para o anoitecer do mesmo dia.

Chegada a hora, subiram dois meninos para o campanário da igreja, para tocar no enterro, e concluído aquele piedoso ato, se retirou o povo para suas casas. Depois dos últimos toques de costume, desceram os meninos da torre, e estando ainda na escada, um grito para assustar o outro:

– Olha que o morto vai te pegar!

Ouvindo isso, impressionado e cheio de pavor, o menino se pôs a correr, e ao passar pela igreja deixou a vela acesa que levava nas mãos sobre a mesa do altar-mor, não parando de correr até que chegou à rua.

Fechadas pouco depois as portas da igreja, a chama da vela consumiu-a rapidamente e atingiu o tecido que revestia o altar, que assim de dispôs a queimar. Queimou-se de fato, e atingindo o fogo o sacrário e o retábulo, começou a abrasar tudo, até chegar ao lindo madeirame que adornava o teto da igreja.

Os habitantes da cidade, entregues ao sono, ignoravam por completo que a igreja estivesse ardendo. Sem embargo, como um habitante de Munébrega se levantasse à meia-noite para cuidar de seus cavalos, notou um grande resplendor no céu, e quis averiguar de onde procedia, e surpreendido viu que se originava das chamas que saiam do templo paroquial. Imediatamente deu alarde, e os habitantes da cidade, descalços e mal-vestidos, acudiram pressurosos para apagar o fogo, que lograram atalhar depois de grandes esforços.

Sua maior preocupação foi logo saber se o Santíssimo Sacramento se tinha reduzido as cinzas, e por isso, cheios de fé e devoção, passaram alguns pelo meio daquela multidão de brasas. Um desses corajosos dói o cura D. Pedro Colas que, vendo o Sacrário queimado, mas fechado, abriu-o e com grande surpresa deu-se conta de que tinha desaparecido o Senhor, pois nada continha dentro, nem mesmo a arcazinha de prata que encerrava as sagradas Hóstias.

Começaram então a separar brasas de brasas, apagando por completo aquele vulcão, e depois de algum tempo, a uma distancia de quinze pés em linha reta do tabernáculo, descobriu-se a Sagrada Eucaristia colocada sobre o piso, coberta com o mesmo tecido carmesim que antes tinha por véu. Em redor dElas se formara, durante o incêndio, uma espécie de capela, com uma vara no alto, formada pelas próprias brasas, que pareciam adornos de rosas vermelhas, e no tecido que cobria o recipiente metálico se haviam depositado três brasas pequenas que resplandeciam como estrelinhas, servindo assim de ornato entre tantas maravilhas.

Alegres todos do povo por ser encontrado o Santíssimo sacramento, louvaram e glorificaram a Deus, dando-lhe infinitas graças pelos prodígios que presenciavam. O cura abriu a arcazinha de prata e verificou que as sagradas Hóstias – seis pequenas e uma grande – estavam tão brancas e intactas como quando ali tinham sido depositadas.

O cura avisou de todo o acontecido o venerável bispo de Tarazona, D. Diego de Yepes., que ordenou que se conservassem as Hóstias até a próxima visita pastoral, quando seriam examinadas. Durante sete anos se conservavam incorruptas as sacrossantas Hóstias e apesar de tão manifesto prodígio, determinou o referido Prelado consumi-las no santo sacrifício da Missa.

Somente se venera hoje em Vilueña a arcazinha de prata, feliz concha daquelas divinas Pérolas, obtendo que os fiéis que a veneram extraordinários favores do céu.

(P.Fr.Roque Faci, Aragon, reino de Cristo y dote de Maria Santísima)

MÚSICA CELESTIAL

Século XIII– Santarém (Portugal)


Belíssima é a cidade portuguesa de Santarém, situada às margens do rio Tejo, não longe de Lisboa.

Nela, uma pobre mulher sofria de maus tratos por parte de seu marido, e ao invés de buscar remédio e consolo na prática das virtudes cristãs, teve a infeliz idéia de comunicar suas penas a uma velha, a qual, por ignorância ou malícia, deu-lhe péssimo conselho: recomendou que fosse comungar numa igreja, mas ao invés de consumir a Hóstia sagrada, a levasse às ocultas para casa. Com isso, dizia, o marido voltaria a estimá-la.

GUERREIROS CRISTÃOS

ANO 1242 - OLMUTZ (ÁUSTRIA)

Corria o ano de 1242 e as vitoriosas hordas dos tártaros, comandados por Beda, invadiram a Silésia.

Venceslau, rei da Boêmia, havia confiado a defesa do marquesado de Moravia ao nobre Jaroslav de Stersberg, e este à frente de oito mil boêmios, aos quais se juntaram quatro mil combatentes da nobreza moravia, ocupou Olmutz, decidido a combater até à morte.

Logo Olmutz foi cercada de todos os lados por um exército números, e os bárbaros, para atemorizar os sitiados, arrastavam até as muralhas as cabeças das vítimas que imolavam por todas as partes. Aquele espetáculo não fez mais que estimular o valor dos defensores de Olmutz, que ardiam no desejo de vingar seus irmãos. Mas Jaroslav julgou prudente moderar a indignação de seus homens e esperar uma ocasião favorável para cair sobre os sitiantes.

Não tardou ela a se apresentar: os tártaros, vendo a aparente inação dos sitiados, tomara-na por covardia e se entregaram â moleza e â libertinagem. Jaroslav creu chegada a oportunidade quando os viu vagar separados e em diversas direções para se proporcionarem víveres e reunir um grande motim.

A empresa, não obstante, era arriscada, e Jaroslav quis assegurar a proteção do Céu. No dia de São João Batista, o valente guerreiro foi com suas tropas à Igreja de Corpus Christi e ali purificou sua alma com uma fervorosa confissão, recebendo, ademais, o Corpo do Senhor.

Capitães e soldados seguiram, o exemplo de seu chefe; e Jaroslav, vendo-os alimentados com o Pão dos fortes, dirigiu-lhes eloqüentes palavras, recordando aos valentes guerreiros o que deviam a sua Pátria, a sua santa fé e à Igreja Católica.

Depois deu ordens para que tudo estivesse pronto na noite seguinte. Chegada a meia noite, soou o sinal convencionado a Jaroslav, com seus soldados, se pôs em marchas.

O número dos bárbaros não os espantava, pois iam combater em nome do Senhor. Ou melhor, o próprio Senhor dos exércitos acompanhava pessoalmente os guerreiros cristãos.

Com efeito, na véspera, quando o exército enfileirado junto ao altar recebia o Pão dos Anjos, ficaram na âmbula cinco Hóstias consagradas. Jaroslav se lembrou da Arca da Aliança, que de acordo com as ordens de Deus precedia aos israelitas no combate, e quis levar consigo na batalha aquele sagrado penhor da vitória, mais poderoso que o tabernáculo do Antigo Testamento, e fez com que as santas hóstias, cuidadosamente guardadas num precioso cofrezinho, fosse conduzida na frente dos combatentes por um sacerdote montado a cavalo.

Começou a luta. Seguros da vitória, os soldados de Jaroslav se precipitaram sobre as sentinelas bárbaras e as passaram a fio de espada; degolaram os avançados inimigos que se haviam entregado a um profundo sono, e invadiram o próprio acampamento dos bárbaros, os quais entregues à embriaguez, só se deram conta da presença de Jaroslav quando a mortandade já era espantosa.

Aturdido e sobressaltado Beda pelos gritos de alarde, quis restabelecer a ordem e dispor-se para a defesa, mas em todos os lados tropeçava em cadáveres dos seus, e logo tombou diante dos formidáveis golpes de Jaroslav, com quem lutou corpo a corpo. Houve, durante muitas horas, uma terrível carnificina naquela multidão de bárbaros.

Por fim, Jaroslav conteve seus cansados soldados. A morte havia causado muitas baixas, mas Olmutz e a Moravia estavam salvos; porque os tártaros, aterrados com as perdas, tinham fugido até ganhar a Hungria.

E aconteceu que, ao chegarem a Olmutz os batalhões vitoriosos, as sacrossantas hóstias apareceram rodeadas de uma auréola resplandecente, de cor de sangue, como para dar público testemunho de que Cristo se havia posto do lado dos valentes guerreiros, e por eles tinha combatido contra os inimigos de Seu Nome.

("El Pilar", ano XXI, nº 1035, Zaragoza, 13 de junho de 1903 - G. Ott, Wunderbare Begebenheiten, p. 193)

ESTANDARTE EUCARÍSTICO

Ano 1238 – Daroca (Espanha)


Conquistadas à moirama as Ilhas Baleares, empreendeu D. Jaime I sua campanha contra os mouros de Valência. A oportunidade era muito favorável, pois pelejavam entre si dois emires mouros, mas a empresa se apresentava algo difícil pela superioridade numérica do exército inimigo.

Confiando mais em Deus do que em suas próprias forças, apresentou-se D. Jaime em campanha, e imediatamente as populações de Daroca, Calatayud e Teruel alistaram tropas que se uniram às hostes do ilustre Conquistador. Começou-se a conquista pela vila de Burriana, construindo-se logo um sólido castelo, perfeitamente entrincheirado, e D. Berenguer de Entenza e D. Guillén de Aguillón foram encarregados de defender essa fortaleza, a partir da qual, com os contingentes das três referidas comunidades, não cessavam de hostilizar o inimigo.

Zaén enviou contra ela quarenta mil soldados a pé, sem contar os montados a cavalo, para que entrassem nela o ferro e fogo e a arrasassem. Saiu para enfrentá-los D. Jaime, com quatro mil combatentes de infantaria e quatrocentos cavalos, travando-se então um terrível combate, no qual os defensores da Cruz obtiveram uma gloriosa vitória. Seguiu-se a esse triunfo a tomada da cidade de Valência, onde os valentes soldados de Daroca foram os primeiros a afixar a bandeira da Fé na Porta de Serranos.

Prosseguindo a guerra, trataram, não obstante a justificada ausência de D. Jaime, de atacar o castelo de Chio, magnífica praça-forte que possuíam os sarracenos. Mas estes, diante do perigo, fizeram sair suas hostes, que logo conseguiram cercar o acampamento dos cristãos, colocando-os na alternativa de entregar-se ou morrer.

Naquela aflição, o general católico arengou os seus, exortando-os, com entusiasmo, a pelejarem com denodo, a rezarem um ato de contrição e a receberem os chefes a Sagrada Eucaristia. Imediatamente se dispôs o sacerdote, de nome Mateo Martínez, a celebrar o Santo Sacrifício, e logo depois da Consagração ressoaram os alaridos da moirama que se precipitava sobre os católicos, mas estes se levantaram, empunharam as armas, e ocorreu então o combate mais sangrento e prodigioso de toda a campanha.

Nesse ínterim, o capelão consumiu a Hóstia do Sacrifício e correu a esconder numa gruta, envolta nos Corporais, as Hóstias consagradas. A luta se generalizou, e pelo espaço de três horas pelejaram os cristãos aragoneses com grande bravura, tomando-se vencedores e fugindo os mouros espavoridos à vista de tão inaudito valor.

Depois do glorioso triunfo, apressou-se o capelão a recolher as sagradas Espécies, e ao abrir os Corporais, estando ajoelhados os cinco capitães com seu general para receber a Comunhão, observou com assombro que as Hóstia se tinham convertido em sangue…

Aqueles heróis, cheios de respeito e emoção, se inclinaram, as lágrimas correndo pelas faces, quando vira com seus olhos mortais o Sangue do próprio Redentor, que o Céu Ihes dava como prêmio de sua invencível fé. Extasiados soldados e capitães com dom tão precioso, esqueceram-se das incertezas do passado combate e de que podia refazer-se o inimigo, quando de repente se viram novamente envoltos pelos raivosos sarracenos que desejavam vingar a afronta a sua vergonhosa denota.

No momento de começar a peleja, o sacerdote que havia celebrado o Santo Sacrifício hasteou sobre um li aquele bendito Corporal, e posto de pé o mostrou aos combatentes.

Brilhante com os reflexos do sol e açoitado pelos ventos, ondeava flutuando no azul dos céus aquele estandarte maravilhoso, colorido com o preciosíssimo Sangue de Jesus Cristo e despedindo de suas manchas avermelhadas raios de luz que infundiam terror e cegavam os mouros, ao mesmo tempo em que davam A imo aos cristãos. Desde o local do convento chamado hoje de Corpus Christi até o castelo de Chio foi tão geral o escarmento, que fora os poucos que fugiam, não ficou nenhum mouro com vida.

Depois desse milagroso triunfo deixou finalmente a meia I a aquela bela região para não mais voltar a ela, devolvendo-se ao Santo Mistério, que ainda hoje se venera em Daroca, a completa reconquista de Aragão à moirama.

A respeito da posse do santo estandarte houve diversidade de pareceres. O general D. Berenguer pretendia que tão cobiçado tesouro ficasse em Valência, por ter ocorrido o prodígio em seu território. O capitão de Temel o reclamava, porque suas tropas tinham sido as mais prejudicadas pelo inimigo; o de Calatayud, por ser o que maior contingente de soldados e bens dera para a guerra; e o de Daroca, por ser filho desta cidade o sacerdote que hasteou o santo estandarte.

Como todas as razões alegadas pareciam de muito peso, ninguém queria ceder o suposto direito; isso obrigou a que se lançassem sortes, e três vezes consecutivas elas foram favoráveis a Daroca.

Entretanto, mesmo assim não ficaram satisfeitos, os ânimos, e se combinou de comum acordo, que fossem colocados os milagrosos Corporais num cofre precioso, sobre uma mula do exército inimigo, e que o animal seguisse, na marcha que tomasse seu próprio instinto, sendo cedidos os Corporais à comunidade em cujo território a mula fosse ter.

Fez-se conforme se havia determinado, e a cavalgadura tomou o caminho de Játiva, seguindo-a pelo o capelão Mateo Martínez e uma boa parte do exército. Passando por Artiaza se realizaram o milagre da cura de um endemoninhado, e na divisa com Aragão outras muitas maravilhas devidas ao Santo Mistério que prodigalizava suas bondades pelos povoados por onde passava.

Entrou a mula em território aragonês seguindo em não interrompida carreira, sem comer nem beber, e depois de cinqüenta léguas de jornada chegou no dia 7 de março de 1239 a Daroca, em frente à igreja de São Marcos, que mais tarde foi a Santíssima Trindade, e ali caiu de repente sem vida.

Ficou, pois, com a cidade de Daroca aquele Tesouro dos céus entre os vivas, regozijos e aclamações de seus filhos, que logo o transladaram com grande solenidade à igreja de Santa Maria, depositando-o nela com a glória maior de Aragão e o timbre mais prezado do Catolicismo.

Logo se fundou em Daroca uma capelania para que todos dias rezasse a Missa do Santíssimo Sacramento, e ordenou-se que nos dias 7 de março de fizesse a cada ano uma solene procissão com todo o regozijo, musica e acompanhamento possíveis. E como os fiéis que acorriam a essa festa eram muito numerosos e não cabiam na povoação, foi erigida fora da cidade uma torrezinha, para qual eram levados os santos Corporais, que um sacerdote expunha ao numeroso concurso de gente.

Fazia já vinte e três anos que assim se celebrava a festa, e para mais autorizá-la enviaram-se embaixadores ao Papa urbano IV, a fim de impetrar graças e favores com que acrescentar mais e mais a devoção dos fiéis ao Santo Mistério.

Estavam os delegados em Roma, quando sucedeu o milagre de destilar sangue uma Hóstia consagrada em Bólsena, e comovido o Sumo Pontífice por ambos os prodígios, e também por algumas revelações que os haviam precedido, instituiu em 1264 a festa de Corpus Christi, encomendado a São Tomás de Aquino que compusesse o oficio de tão solene festividade.

No átrio da igreja de Daroca, chamado dos Perdões, pelo qual entrou o Santo Mistério, costumava, oito dias antes da festa ou alguns depois, fixar-se um enxame de abelhas como sinal de que ali havia passado Jesus Cristo nosso Redentor.

Quase todos os monarcas espanhóis, começando por D. Jaime I, o Conquistador, reverenciaram esse augusto Mistério, cumulando sua igreja de ofertas e honras até obter que fosse nomeada insigne Colegiada , e os Sumos Pontífices derramaram em seu favor o tesouro das maiores graças espirituais, sendo finalmente declarada Basílica pelo Papa Leão XIII.

(Núñez, Antiguedades de Daroca,1ª parte, cap. III – Lanuza, Historia Ecles. De Aragon, tomo I, liv. II, cap. XIII – PE. Manuel Hernando del Castillo, Historia de La Ordem de Predicadores, 1ª parte, tomo III, cap. XXVIII – PE. Pedro Rivadeneira S.J., Flos Sanctorum)

A CRUZ DE CARAVACA

ANO 1227 – CARAVACA (ESPANHA)

Em 1227 reinava em Valência o príncipe mouro Zeyd-Abu-Zeyd, quando aconteceu o prodigioso fato de sua conversão ao Catolicismo, referido pelos historiadores da seguinte forma:

Um santo sacerdote, desejoso de que os mouros se convertessem à verdadeira Fé, não teve a menor hesitação em ir pregar nas suas próprias regiões. Irritaram-se os sectários do Islã por tal atrevimento, e não sossegaram até que o sacerdote fosse preso e levado até a presença de Zeyd-Abu-Zeyd.

O rei, entretanto, desejava havia muito tempo ter quem lhe explicasse os mistérios da Religião Cristã, e ao ver o sacerdote lhe disse:

- Ouvi falar do vosso sacrifício da Missa, e gostaria de saber a razão dessa cerimônia.

- Sabei, ó rei, respondeu o cativo, que todo sacerdote, legitimamente ordenado, recebe do Céu um poder sublime em virtude do qual oferece o Santo Sacrifício. Quando, pois, revestido dos ornamentos sagrados se aproxima do altar e pronuncia as mesmas palavras que o divino Salvador pronunciou na Ultima Ceia, a Hóstia que tem em suas mãos se converte na carne adorável de Jesus Cristo e o vinho em seu preciosíssimo sangue; de maneira que, sob as espécies sacramentais, se contém a presença real de Jesus Cristo, que Se oferece de modo incruento ao Padre Eterno, pela salvação do gênero humano.

- Como poderei crer nisso, contestou o rei mouro, se vós não me fazeis ver tão grande maravilha de modo visível?

O sacerdote, inspirado por Deus, respondeu que celebraria a Santa Missa em sua presença se lhe facilitasse todo o necessário para isso. Imediatamente o rei enviou um mensageiro à cidade de Cuenca, que estava em poder dos cristãos, para que conseguisse o que o sacerdote pedira. Quando o mensageiro voltou, o sacerdote se dispôs logo a cumprir a promessa.

Tinha começado já as cerimônias santas, rezado o Confiteor e se aproximado ao altar, quando, querendo fazer reverência à Cruz, notou que faltava a Cruz no altar; e, voltando-se para o rei, lhe disse que não podia continuar a Santa Missa porque lhe faltava uma coisa necessária.

- Que falta? Perguntou o soberano. Será talvez isso que vejo aparecer misteriosamente sobre vossa cabeça?

“O sacerdote levantou os olhos e viu dois Anjos que lhe apresentavam uma Cruz vinda do Céu”, O sacerdote a colocou sobre o altar e prosseguiu, com sumo gozo de espírito, o Santo Sacrifício.

O rei acompanhava com muita atenção cada nova cerimônia, e seu coração estava dominado por uma forte impressão. Parecia-lhe que o sacerdote, com os ornamentos sagrados, era naquele momento mais o que um homem mortal. Chegou por fim o ansiado instante da elevação e – oh prodígio! – viu com toda clareza transformar-se a Hóstia sacrossanta num formoso menino rodeado de celestiais resplendores.

Essa maravilha sobre a infidelidade do rei mouro. Iluminado seu espírito pela graça interior, conheceu a verdade dos mistérios da Fé católica, e desde aquele momento creu firmemente em Jesus Cristo, permitindo a seus vassalos abandonar os dogmas ímpios do Alcorão e recebendo ele mesmo o Batismo, no qual tomou o nome de Fernando. Retirou- e em seguida a viver entre os cristãos, acabando santamente seus dias em Zaragoza no ano de 1248.

(Bolandistas) 

TRANSBORDAMENTO DE UM RIO

ANO 1226 - AVIGNON (FRANÇA)

O dia 14 de setembro de 1226 será sempre lembrado na cidade de Avignon, pois nesse dia, em que se comemorava a festa da Santa Cruz, o rio Ródano transbordou com ímpeto furioso, convertendo toda a cidade num imenso lago. A desolação e o pranto se espalharam.


Em meio àquela grande consternação, lembraram-se os piedosos habitantes de que numa capela estava exposto solenemente o Santíssimo Sacramento, e determinaram salva-l da inundação. Alguns homens mais intrépidos embarcaram num bote, dirigindo-se ao local da pequena igreja, e ao entrar dentro dela deram-se conta, com assombro, de que se havia repetido o prodígio do mar vermelho e do rio Jordão, pois as águas se conservavam a uma altura de mais de um metro, à direita e à esquerda do altar, deixando livre e seca uma passagem até o tabernáculo, que permanecia intacto, assim como o Santíssimo Sacramento.

Correu por toda a cidade a notícia de um portento tão singular, e logo acudiu imensa multidão em barcos para presenciá-lo; o próprio rei Luís VIII (pai de São Luis IX), que estava naquele dia em Avignon, também quis ser testemunha ocular do prodígio.

Em sua memória foi instituída na capela, com aprovação do Sumo Pontífice, a exposição cotidiana e perpétua do Santíssimo Sacramento.

(Pe. Pedro Laurenti S.J., Le Maraviglie del SS. Sacramento, p. 46).

IMPIEDADE CONFUNDIDA

ANO 1225 - TOULOUSE (FRANÇA)


Em 1225 chegou Santo Antônio de Lisboa à cidade de Toulouse, onde devia ensinar Teologia e dedicar-se também à pregação do Evangelho; ali se encontrava o principal foco da heresia albigense. Raimundo VII, conde de Toulouse, seguia as pegadas de seu pai, e embriagado em triunfo contra o filho de Simão de Montfort, se manifestava mais rebelde do que nunca à Igreja, e protetor declarado dos hereges.

Santo Antônio utilizou todos os recursos de que dispunha para granjear o apreço dos sectários, e teve a felicidade de converter grande número deles com seu exemplo, seu sermão e seus milagres.

A história nos conservou a recordação de um dos muitos prodígios realizados pelo Santo na região de Toulouse. Eis a seguir um acontecimento maravilhoso:

Um dia Santo Antônio teve uma longa discussão sobre o Santíssimo Sacramento com um astuto, influente e obstinado albigense. Apertado pela argumentação sólida e clara do Santo, pareceu comover-se e, como a ponto de render tributo à verdade, assim falou:

- Deixemos de discursos e vamos aos fatos; se podes provar por um milagre visível, que o Corpo de Jesus Cristo está realmente na Eucaristia, eu te juro afastar-me, no mesmo momento, das minhas idéias e me submeter à tua fé.

O momento era crítico e solene para Santo Antônio, o qual, inspirado pelo Senhor, não vacilou e respondeu com inteira confiança que daria a prova que lhe era exigida. Então o albigense acrescentou:

- Eu posso uma mula e a deixarei presa e sem alimento durante três dias; depois disso a conduzirei a um local público e lhe darei de comer; tu chegará com a tua Hóstia consagrada, e se a mula, apesar de sua fome devoradora, deixar o feno e se inclinar diante desse Deus ao qual, segundo tu dizes, adoram todas as criaturas, não farei nenhuma resistência e me submeterei humildemente à Igreja Católica.

Acedeu Santo Antônio a essa proposição e se retirou a orar, pedindo ao Senhor Se servisse manifestar seu poder para salvar tantos infelizes que gemiam sob o peso das cadeias do demônio.

Compareceu o herege, acompanhado por grande número de sectários, no local e na hora que haviam combinado, conduzindo sua mula e o alimento que ela mais apreciava. Santo Antônio acabava de celebrar o santo sacrifício da Missa numa capela vizinha, e em seguida saiu rodeado de uma multidão de fiéis. Levava nas mãos o ostensório no qual se via a Sagrada Hóstia, e adiantou-se majestosamente, recitando hinos e outras orações até chegar à praça pública.

Aproximou-se então da mula e disse em voz alta:

- Em nome de teu Criador, que eu, indigno, tenho em minhas mãos, e em virtude de sua Onipotência, ordeno-te que adores a este Deus feito Homem, a fim de que a maldade herética seja confundida e todos vejam obrigados a reconhecer a divindade d'Aquele que, a voz do sacerdote, Se sacrifica a cada dia no altar.

Naquele mesmo momento ofereceram de comer à mula, mas - oh prodígio - o animal não fez caso do feno que lhe apresentaram e, obedecendo à voz de Santo Antônio, prostrou-se, inclinado a cabeça até tocar a terra, e assim manteve imóvel, naquela atitude respeitosa, diante da sacrossanta Eucaristia.

Ao ver esta maravilha, os católicos deram brados de júbilo, e os hereges ficaram confundidos, e o herege que tinha solicitado o milagre se lançou aos pés de Santo Antônio, adorando em voz alta o Santíssimo Sacramento e declarando-se católico.

O novo convertido fez retornar à verdadeira Fé toda a sua família e construiu uma magnífica igreja em honra de São Pedro; nela seus descendentes edificaram uma preciosa capela, sobre cuja fachada fizeram gravar uma inscrição destinada a perpetuar a recordação de tão grande milagr.

Santo Antônio morreu no ano de 1231, e a Igreja honra sua memória no dia 13 de junho.

(Abade J.A. Gayard, Vida de San Antonio)

CONSELHO DIABÓLICO

ANO 1220 - NARBONNE (FRANÇA)

       Em Narbonne, quando a heresia albigense contaminava a França, um herege disse a um ignorante pescador que, se quisesse ter sorte no seu ofício, quando comungasse guardasse a Hóstia e a desse de comer aos peixes.

Procedeu assim o infeliz, e depois de transcorridos vinte anos, quando já a heresia estava extinta em Narbonne, vendo o pescador a grande festa que os católicos faziam em honra ao Santíssimo Sacramento, arrependido de seus pecados se confessou e quis receber a Sagrada Comunhão. Mas o seu confessor lhe disse que não A recebe logo, porque convinha chorar durante algum tempo o sacrilégio cometido.

Triste e derramando abundantes lágrimas, foi-se ao rio no mesmo lugar em que havia cometido seu gravíssimo crime, e com grande surpresa viu que da outra margem do rio vinha em sua direção, com suma velocidade, um peixe com a Hóstia na boca.

Não se atreveu a tocá-lo, mas correu em seguida a dizer o que aconteceu a confessor. Este foi ao local em companhia do pescador e localizaram ambos o peixe que, com grande mansidão, se deixou pegar pelo sacerdote que lhe tirou a Sagrada Hóstia da boca Metade dela se pôs no Sacrário da paróquia e a outra metade na Catedral.

(Jacobo de Lausana – Pe. Fr. Jaime Barón, Luz de la Fe y de la Ley, liv. II, cap. XLVII)

SANGUE DIVINO

ANO 1171 - FERRARA (ITÁLIA)

       Ao visitar a cidade de Ferrara, na bela Itália, ergue-se diante dos olhos do viajante a suntuosa igreja de Santa Maria del Vado, e nela a magnífica capela do preciosíssimo Sangue, esplendidamente decorada, na qual ardem perenemente grande número de lâmpadas de prata que testemunham a viva fé dos seus devotos paroquianos.
Eis a origem histórica desse santuário:

A heresia de Berengário contra o Santíssimo Sacramento, que começava a propagar-se já no século XI, cem anos depois se reproduzia, mesclada com outros erros, por meio de uma multidão de heresiarcas, chamados novos marniqueus, os quais infeccionavam e procuravam, com suas pestilenciais doutrinas, perder as almas dos habitantes da Itália.

Foi então que, para avivar a fé na Sagrada Eucaristia, Deus quis obrar um manifesto prodígio em confirmação do que ensina o dogma católico o que diz respeito ao Santíssimo Sacramento.

No dia 28 de Março de 1171, na então pequena igreja de Santa Maria Del Vado, celebrava um sacerdote devotamente a Missa de Páscoa. Feita a consagração, logo que o ministro de Deus dividiu, depois do Pater Noster, a sacrossanta Hóstia sobre o cálice, gotas de sangue salpicaram a parede oposta e a abóbada da capela.

Divulgado o fato, ocorreu todo o povo de Ferrara para ver o prodígio, e ficou sumamente comovido ao contemplar Sangue divino, agradecendo à suma Bondade aqueles milagres que confirmava a Fé católica.

A pequena igreja se converteu numa grandiosa e bela basílica, que é até hoje um monumento perene do portento acontecido.

No ano de 1871, celebrando-se o sétimo centenário de tão estupendo prodígio, realizaram-se em Ferrara soleníssimas festas religiosas.

(Pe. Pedro Laurenti S. J., Le Meraviglie Del SS. Sacramento, p. 20)

O GLORIFICADOR GLORIFICADO

SÉCULO X - WORMS (ALEMANHA)

       Oto I, imperador germânico, tinha convocado todos os príncipes do império á cidade de Worms, para uma reunião geral, e Venceslau, duque soberano da Boêmia, que também tinha sido convocado, achava-se no dia marcado na cidade, mas antes de ir ao palácio, quis ouvir a Santa Missa.

              Celebrava-se esta solenemente, pelo que prolongou-se o tempo de sua permanência na igreja. Os príncipes já estavam reunidos, e como só faltasse Venceslau, interpretando mal aquela demora,  conceberam a suspeita de que ele atrasava sua chegada para ser recebido por aquele nobre Congresso com atos de reverência e respeito.

Para humilhar, pois, a suposta vaidade do duque, combinaram entre si que, quando ele chegasse, ninguém se moveria de seu lugar nem se mostraria atencioso com ele. E como se isso não bastasse, ainda persuadiram o Imperador a também se abster de qualquer demonstração de cortesia e respeito em relação ao duque da Boêmia.

Mas o Senhor, que Se ria daqueles néscios e queria recompensar e honrar Venceslau como insigne glorificador do Santíssimo Sacramento, fez com que as coisas seguissem caminho muito diferente.

Aconteceu que o Imperador viu Venceslau entrar pela porta do grande salão acompanhado por dois belíssimos Anjos, resplandecentes como o sol, colocados um à direita e outro à esquerda do Santo, fazendo-lhe corte. Tomado por uma grande admiração, Oto levantou-se do trono, desceu os degraus e, atravessando a sala, foi receber São Venceslau. Fez-lhe uma profunda reverência, tomou-o cortesmente pela mão e o conduziu ao trono, para que ocupasse o primeiro lugar à sua direita.

Os príncipes que presenciaram a tudo isso, levantado, atônitos por tais demonstrações de honra inesperadas, olhavam-se fixamente uns aos outros, sem saber a que atribuir aquilo que estavam vendo. O imperador, notando a surpresa daqueles nobres cavalheiros por haver se excedido tanto em honrar a Venceslau contra a expectativa de todos, disse que se maravilhava sobremaneira de que eles não tivessem visto os prodigiosos resplendores que ao seu redor espargiam os celestiais espíritos.

Cheios de admiração ao ouvir isso, os príncipes se inclinaram humildemente diante de Venceslau e, confessando a culpa se seu temerário juízo, pediram-lhe perdão.

Oto concebeu tanta benevolência e veneração para com o santo duque, que lhe obsequiou com muitos preciosos dons e lhe concedeu o título de Rei, côo o direito de colocar em seu escudo o símbolo heráldico imperial da águia em campo de prata.

Foi assim que Deus quis premiar, já na terra, a singular piedade de Venceslau para com o Divino Sacramento.

(Pe. Pedro Laurenti S. J., Le Meraviglie Del SS. Sacramento, p. 126)

PEGADAS MARAVILHOSAS

Século X – Praga (Boêmia)


São Venceslau, duque soberano da Boêmia*, tinha singular devoção ao Santíssimo Sacramento do altar. Mandava reverenciar os sacerdotes, manifestava a eles sinais de honra e deferência, favorecia-os o quando podia e julgava-se muito honrado em poder ajudar pessoalmente na celebração do Santo Sacrifício.

O intenso amor que professava a Jesus Sacramentado se manifestava de modo especial nas freqüentes visitas que, de dia ou de noite, fazia às igrejas para adorá-lo. Se o templo estivesse fechado, ajoelhava-se junto à porta, e ali permanecia recolhido em oração. Se a distância ou a falta de tempo não lhe permitiam aproximar-se dEle, de longe dirigia seu olhar para o tabernáculo, para oferecer vassalagem a Deus Nosso Senhor, oculto na Sagrado Eucaristia.

Uma noite em que nevava copiosamente, ia o Santo de pés descalços para visitar o Santíssimo Sacramento nas igrejas, e o criado que o acompanhava se ia queixando do frio excessivo que sentia.

-Põe, lhe disse Venceslau, teus pés sobre as marcas dos meus.

O acompanhante assim o fez, e mal deu alguns passos começou a sentir que do gelo pisado pelo santo monarca saia um suave calor, que maravilhosamente o aquecia.

Esse prodígio vez entender ao criado quanto agradavam ao Senhor as visitas que Venceslau Lhe fazia no Santíssimo Sacramento.

              (Lorenzo Surio, vida de Wenceslao)

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*Era menino de 13 anos quando herdou o Ducado da Boêmia, por morte de seu pai Vratislau. Na Corte, duas influências postas se defrontavam: de um lado, a piedosa Ludmila, mãe de Vratislau, que era católica fervorosa e educou no catolicismo o neto Venceslau; de outro lado, a duquesa Draomira, viúva de Vratislau, regente na menoridade de Venceslau. Sendo pagã fanática e não conseguindo ter influência sobre o jovem duque, manifestava clara preferência pelo filho mais jovem, Boleslau, que também era pagão. Draomira mandou estrangular a sogra e passou a perseguir os católicos, mas não ousou tocar em São Venceslau. Este, impotente, tomou uma atitude prudentemente discreta até que, ao atingir os 18 anos, deu um golpe de força e destituiu a mãe, tomando posse do seu ducado e modificando radicalmente a situação. Favoreceu o catolicismo, chamou de volta os missionários, mandou edificar igrejas, submeteu-se como vassalo do Sacro Império. Muito piedoso, fazia questão de preparar pessoalmente, com trigo de suas plantações e uvas de suas videiras, as hóstias e o vinho destinados ao Sacrifício da Missa. Fez um breve mas memorável governo e morreu em 929, aos 23 anos de idade, assassinado por Boleslau, que, em conluio com a mãe, o atraíra para uma cilada.

CONVERSÃO DE UM DUQUE

ANO 785 - AIX-LA-CHAPELLE (FRANÇA)

O magnânimo rei dos francos, Carlos Magno, não podia subjugar o orgulhoso duque da Saxônia, Witikindo, como já tinha feito com a força das armas aos de sua nação; mas não perdia a esperança de conquistar sua amizade. Com esse objetivo, tomou a determinação de lhe mandar embaixadores para lhe proporem uma entrevista, enviando ao mesmo tempo reféns que garantissem a segurança de sua pessoa.

 Witikindo, mais para não parecer covarde do que para dar gosto ao rei Carlos Magno, aceitou a proposta de ir à sua corte; lá chegando, a majestade e a bondade de Carlos conseguiram o que tantos e tão valorosos exércitos francos não tinham obtido, pois o indomável saxão rendeu em sinal de respeito suas armas diante de Carlos e se congratulou por ser amigo de um tão poderoso príncipe.

Carlos, entretanto, não se contentou em tê-lo ganhado para si; seu nobre e religioso coração aspirava mais alto, pois desejava conquistar o chefe bárbaro para Nosso Senhor Jesus Cristo.

Com efeito, mandou expor pormenorizadamente a Witikindo a verdadeira Religião de Jesus Cristo, a qual tão cruelmente ele até então perseguiria. Conhecê-la e sentir-se tomado de admiração e amor por ela foi coisa de um instante; de tal forma que, uma vez abertos os olhos à luz de Deus que interiormente obrava nele aquela mudança, Witikindo não pensou mais que em receber o Batismo, para fazer-se cristão, e, voltando ao seu país, rejeitou decididamente os ídolos e os erros do paganismo.

Pouco tempo depois de sua chegada à Saxônia, não estando ainda suficientemente instruído nos mistérios do Cristianismo, sentiu curiosidade de ver o que se passava nos domínios católicos de Carlos Magno, e para fazê-lo mais à vontade, vestiu-se com hábito de peregrino e foi a Aix-la-Chapelle, onde por ser tempo de Semana Santa, toda a gente comungava e o exército francês cumpria o preceito Pascal.

Andava Witikindo de um lado para outro com grande atenção e piedosa curiosidade, observando tudo sem cansar-se de admirar a beleza das cerimônias católicas; mas acabou sendo reconhecido por um oficial da Corte. Carlos Magno chamou-o então ao seu palácio e lhe perguntou qual era o motivo de sua viagem em traje tão humilde.

- A curiosidade, respondeu o saxão: pensei comigo mesmo que assim pobremente vestido teria comodidade para examinar o que pretendia.

- E que impressão, lhe perguntou Carlos, vos produziram as celebrações do culto católico?

- Tudo me impressionou profundamente; mas o que me causou maior admiração foi quando o sacerdote, voltando-se para vós, vos deu um pequeno pão, e eu vi que esse pão se convertia num Menino resplandecente de beleza; eu O contemplei com sumo gozo de espírito e meus olhos se fixaram nEle ao ver como se dirigia com amor para os que chegavam ao pé do altar; mas reparei que a alguns Se entregavam ao pé do altar; mas reparei que a alguns Se entregava de muito má vontade, com manifesto sinais de repugnância e horror.

- Deus vos ama, Witikindo, respondeu Carlos, pois vos concedeu a graça de ter visto com os olhos aquilo em que nós cremos pela fé. O pão se converteu no Corpo e Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo assim que o sacerdote acaba de pronunciar as palavras da consagração. Ele Se dá com alegria às almas puras e, pelo contrário, entrega-Se com indignação aos que têm o coração manchado pelo pecado. Aprouve ao Senhor manifestar-vos esse mistério, a fim de obrar vossa perfeita conversão.



(Rohrbacher, História Universal de la Iglesia, liv. 53 – Crantzius, Histórias de los Sajones, liv. 3)